Introdução

Foi em agosto publicado um estudo cujo resultado mostrava maior risco de morte em pacientes com cancro quando tratados unicamente pelas medicinas alternativas e não me admira. Infelizmente, entre os naturopatas e outros terapeutas que se querem sérios e os charlatões, o nome não os difere. Não se sabe ao certo o tipo de tratamento que era feito aos 281 pacientes deste estudo mas nunca se deveria fazer tratamento não integrativo(1). Temos sempre de complementar o convencional.
Pior ainda, infelizmente, muitos terapeutas, que neste caso não passam de charlatões, incluíam na sua prática teorias como as do Hamer.

Nova Medicina Germanica

Ryke Geerd Hamer, nasceu em 1935 e faleceu em julho deste ano, foi médico de 1963 a 1986. A sua licença foi revogada por más práticas. Esteve preso de 1997 a 1998 em Alemanha e de setembro 2004 a fevereiro 2006 em França.
O seu filho, Dirk, foi baleado em agosto 1978 (por Vítor Emanuel, Príncipe de Nápoles, filho de Humberto II, o último rei de Itália) e morreu em dezembro. Foi após este traumático acidente, entre 2 meses a 3 anos depois, em função das fontes, e o aparecimento de um cancro do testículo, que Hamer desenvolveu a Nova Medicina Germanica. Ignorou tudo o que sabia sobre o cancro e o seu desenvolvimento, e relacionou o cancro dele somente com a morte do filho, exemplo perfeito de reflexão "post hoc ergo propter hoc", ou seja, "depois disso, logo causado por isso", uma falácia lógica que procura correlação coincidente sem sempre haver causalidade. Para ele não são alterações genéticas que levam a célula a proliferar de forma incontrolada, ou seja ao cancro, mas sim o choque psicológico. Que stresses mentais podem contribuir a doenças não está posto em questão, mas generalizar uma experiência pessoal em uma teoria ridícula é demais. Para ele basta "resolver o conflito" para tratar o cancro (um genero de psicoterapia (mal feita?) no fundo) e não seguir nenhum tratamento convencional (radioterapia, quimioterapia, etc).

Spoiler, um grupo de estudo para métodos complementares e alternativos em cancro em conjunto com a liga suíça contra o cancro, acredita que o método promovido pelo Hamer é perigoso, sobretudo por retirar dos pacientes um tratamento eficiente. A eficácia da nova medicina germanica não é provada cientificamente e está em contradição com tudo o que se conhece, tanto do diagnóstico como do tratamento da doença.(2)

Para o Hamer, todas as doenças resultam de conflitos, de choques emocionais.(3)
Qualquer doença, que ele chama de DHS, é o resultado de um choque emocional que ocorre simultaneamente no mental, no cérebro e no órgão correspondente. Para justificar tal coisa, o Hamer diz-nos que isso é visível ao realizar uma tomografia computadorizada, vulgarmente chamado de TAC, pelo aparecimento de anéis no cérebro. O problema é que esses anéis não passam de problemas do aparelho em si, quando está mal calibrado. Existem vários tipos de erros e são todos bem conhecidos pela comunidade médica e pelos radiologistas.(4)(5). O argumento do Hamer é ainda menos válido sabendo que esses erros também aparecem em outras partes do corpo.

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Para ele os micróbios - fungos, bactérias e vírus - não são causadores de doenças mas sim que têm um papel importante na fase da cura e que as doenças não são contagiosas ! É conhecido de todos que o VIH, o vírus responsável do sida, cura os pacientes e que isso os torna imortais! Quem não sabe isso?! Ele até diz que os fungos só atingem o endoderme e antigo mesoderme; as bactérias o novo mesoderme e os vírus o ectoderme (estes -dermes se não sabe o que é não faz mal).
Vamos lá pegar no exemplo da tuberculose, ver se cura, se não é contagiosa e se só anda no mesoderme.
Mycobacterium tuberculosis(6) : afeta ossos, sistema nervoso central e sobretudo os pulmões - ou seja mesoderme, ectoderme e endoderme - e é extremamente contagioso, mata 2 milhões de pessoas por ano (o Hamer dizia que tinha um papel importante na cura, lol).

Uma revista alemã tinha descoberto que em 1995 de 50 pacientes tratados pelo Hamer apenas 7 tinham sobrevivido.(7)
Olivia Pilhar tinha 6 anos em 1995 quando foi diagnosticada de cancro. Os pais foram da Áustria para a Espanha, depois de ouvir a conversa do Hamer e recusaram o tratamento medical convencional. Seguiram o plano dele, e como era de esperar, o tumor continuou a crescer. O presidente da Áustria interveio, os pais foram obrigados a voltar e a Olivia foi tratada com cirurgia e quimioterapia. Sobreviveu, e do que encontrei continua viva.(8)
Falei da Olivia como podia ter falado de outra, as vítimas não foram poucas, até se encontra uma lista disponível na internet...(9)

O cancro em poucas palavras

Em Portugal, o cancro mata anualmente cerca de 20 mil pessoas e surgem 40 mil novos casos. Há em 2017 cerca de 500 mil sobreviventes e perto de 100 mil doentes em tratamento. O cancro tem vindo a ser uma doença crónica e já não tanto uma doença aguda.(10)

O cancro não é bem uma doença mas uma família de doenças, é uma proliferação exagerada de células num tecido. O nosso corpo é composto por células, as células idênticas são agrupadas em tecido que formam os órgãos. Cada dia 200 mil milhões de células no nosso corpo morrem e são de novo criadas através de um mecanismo chamado de mitose, ou seja, as células existentes dividem-se. Vários mecanismos existem para controlar essa divisão e evitar erros. É quando esse controlo falha que as células se metem a dividir de forma incontrolável; e é a isso que se chama de cancro.
É bom relembrar que o cancro são tumores, há benignos, que são raramente perigosos, e malignos que podem colocar a vida em risco. Para um tumor poder ser maligno tem de ser alimentado em oxigénio e para isso o tumor tem de ser capaz de formar vasos sanguíneos à volta dele, chama-se a isso angiogênese. Um dado importante a saber é que uma célula cancerígena perdeu em parte a capacidade de consertar o seu ADN. Outro mecanismo da evolução do cancro é poder sair do tecido de origem para migrar para outro órgão através do sangue ou da linfa, chama-se a isso metástase. Mesmo migrando de sítio o cancro continua a ser do tipo inicial. Um cancro do pulmão que metastatisa no fígado continua a ser um cancro do pulmão. Vários tratamentos existem, a cirurgia, que consiste na ablação do tumor; a radioterapia, que consiste em danificar o ADN das células alvo, por não serem capaz de consertar o seu ADN e assim das destruir. A quimioterapia usa o mesmo princípio, danificar o ADN, mas das células que se dividem muito - o efeito colateral disso é que as células que o fazem naturalmente, como as do tubo digestivo ou os folicúlós do cabelo são afetadas, daí a náusea e a perda do cabelo. A naturopatia, quando feita por terapeutas responsáveis, pode ser uma mais valia ao complementar o tratamento, seja através da dieta e jogando com a angiogênese, ou através da fitoterapia ou outros suplementos. Mas o mais importante resta a prevenção, com uma dieta controlada e um estilo de vida saudável.

Stress e cancro

O stresse é uma resposta física e mental a um estímulo externo que altera os níveis hormonais do nosso corpo e as respostas do sistema imunitário; normalmente agudo, ou seja temporário, o stresse pode ser crónico. De forma direta, nenhuma ligação entre o stresse ou eventos traumáticos e o cancro foi encontrada. Um estudo com cerca de 106 000 mulheres, publicado pela Breast Cancer Research em 2016 concluiu não haver ligação entre stresse e eventos traumáticos e cancro da mama.(11) Uma metanálise publicada em 2013 na BMJ com cerca de 160 000 homens e mulheres não encontrou ligação entre stress relacionado com o trabalho e cancro.(12) Noutro estudo de coorte realizado na Dinamarca em 2015 não encontrou relação entre Perturbação de Stress Pós-Traumático e aumento de risco de cancro.(13)

Mas indirectamente o stresse pode levar ao cancro através de escolhas de vida menos saudáveis: má alimentação, fumar, beber álcool em grande quantidade. Essas más escolhas alimentam por sua vez o stresse e outros transtornos mentais e é dessa forma criado um círculo vicioso.

E as pessoas respondem de forma diferente ao saberem que têm cancro. Há quem não saiba lidar com a situação, começam a beber e a fumar por exemplo, e outros que lidam melhor.

É verdade que, infelizmente, a psicoterapia não se mostrou eficaz em aumentar o tempo de vida dos pacientes com cancro (daí então como pensar que a teoria do Hamer cure o quer que seja)(14)(15)(16) mas é importante lidar com as emoções e os sentimentos. O apoio emocional, tanto da parte médica, como dos familiares e amigos, ou ainda de quem está a viver o mesmo, só permite seguir o tratamento melhor. Uma das formas de lidar com o stresse em casos de cancro, e para ficar no registo do mental, é através da prática da meditação Mindfulness, que mostrou bons resultados.(17)

Conclusão

Temos de ter cuidado com o facto de vários outros movimentos inspirados nesta teoria existirem, como a da "biologia total" cujo fundador foi condenado a 2 anos de prisão e 30 000€ de multa após um homem abandonar o seu tratamento.(18)

Se for paciente e o seu terapeuta lhe falar de coisas destas, aproveite para não pagar e fuja a correr. Integre sempre a cirurgia, quimoterapia e/ou radioterapia ou outro tratamento aconselhado pelo seu médico.

Se for terapeuta deixe-se de tretas e vá aprender como se ajuda mesmo os pacientes.

O mais importante ainda resta não sentir culpa, o cancro é de certa forma matemática; mais anos vivemos e mais erros podem surgir. A prevenção resta a nossa maior arma; e os tratamentos ofertos pela esfera médica, em conjunto com naturapatas responsáveis, a nossa melhor defesa.