Quantas centenas de vezes ouvi justificar que faz mal por ser ácido, quantas… Vou neste artigo explicar no que consiste a dieta alcalina, e, com a ajuda de estudos observacionais e clínicos e da fisiologia, mostrar porque a dieta alcalina não me faz sentido.

Variantes desta dieta existem mas a ideia geral é constante : os alimentos que comemos deixam "resíduos" depois de serem metabolizados, resíduos que podem ser ácidos ou alcalinos. Essa acidez ou alcalinidade é medida através do pH, de 0 a 7 é acido, 7 é neutro e de 7 a 14 é alcalino.
Segundo a teoria desta dieta, mais se come alimentos alcalinos, sobretudo fruta e vegetais, e menor será a acidez do nosso corpo, e dessa forma, maior será a proteção contra certas doenças como a osteoporose e o cancro.
Para avaliar a eficácia da dieta, recomendam medir o pH da urina ou da saliva.

Há verdades

De facto, os alimentos podem deixar "resíduos", fosfato e sulfur no caso de serem ácidos e cálcio, magnésio e potássio se forem alcalinos.[1]. Por estas razões, na dieta alcalina é recomendado consumir fruta e vegetais (alcalino) e evitar carne, cereais e leite (ácido). De forma pura, a gordura, o açúcar e o amido são neutros por não conter proteína, sulfur ou minerais.

Os alimentos podem alterar o pH da urina[2] e a facilidade em medir esse valor dá vantagem a esta dieta, compreendo que seja agradável poder ter medições concretas depois de nos esforçarmos em algo. Mas o pH da urina não é um bom indicador do pH geral do corpo nem do estado de saúde. A urina só mostra o que ingerimos há pouco, quem come muito alcalino terá uma urina um pouco mais alcalina e quem come muito ácido terá uma urina um pouco mais ácida, mas só porque os componentes responsáveis dessa alcalinidade e acidez foram excretados pelos rins. O corpo não estará nem mais nem menos alcalino no entanto.

E mentiras

A afirmação mais ridícula feita por quem defende esta dieta é a ideia de poder alterar o pH do sangue através dos alimentos ingeridos, e que um sangue ácido causa doenças ao contrário de um sangue alcalino que as impede.
O corpo regula de forma minuciosa o pH sanguíneo e o líquido extracelular (entre as células) e de forma alguma podemos influenciar isso através da dieta. É possível aumentar de forma temporária o pH do sangue com altas doses de bicarbonato de sódio, mas não sem distúrbios gastrointestinais, e certas condições patológicas graves (insuficiência renal crónica por exemplo) podem provocar acidose, mas independentemente do que se come o pH sanguíneo ronda sempre os 7,4.

Uma das teorias é que, para manter o pH sanguíneo a 7,4, o corpo retira minerais (cálcio) dos ossos para neutralizar o excesso de acidez, o que provoca então osteoporose. Mas dizer isso é ignorar o papel dos rins na regulação do pH do organismo.[3]
Quando ingerimos algo ácido, como as proteínas por exemplo, a acidez é rapidamente contrariada pelo efeito tampão dos iões de bicarbonato que são alcalinos[4]. Essa reação produz dióxido de carbono expirado então pelos pulmões, e sais, excretados pelos rins. Durante essa excreção, os rins vão produzir "novos" iões de bicarbonato que vão voltar ao sangue no lugar dos que foram inicialmente usados no efeito tampão. Desta forma é criado um ciclo no qual o corpo é capaz de manter o pH sanguíneo sem nenhum envolvimento de minerais provenientes dos ossos.

Portanto, ao entender a fisiologia, constata-se que a teoria de uma dieta ácida provocar osteoporose não tem sentido. Só no caso dos rins estarem gravemente disfuncionais (nefropatia hipertensiva, doença renal crónica) é que a ingestão de alimentos alcalinos pode ajudar a preservar os rins (não os ossos!)[5].
No caso da fisiologia não chegar existem vários estudos a irem no mesmo sentido. Estudos observacionais não encontraram correlação entre dieta ácida ou o pH da urina e risco de fratura e de baixa densidade óssea[6] [7] [8]. No entanto encontraram correlação entre uma maior ingestão de proteínas (ácido) com uma maior saúde óssea[9], sobretudo proteína animal[10] [11]. As proteínas até aumentam a capacidade do corpo a excretar ácido[12]. Alguns estudos mostraram que suplementar com sais de potássio, com o intuito de neutralizar a acidez, tem um efeito benéfico nos marcadores ósseos, mas, só nas primeiras semanas, a longo prazo não encontraram benefícios. Outros assumiram que em dietas ácidas o aumento de cálcio excretado provinha dos ossos[13]. Mas, esqueciam-se de medir o balanço, ou seja, a ingestão menos a excreção. Quando isso foi feito, encontraram que as dietas ácidas não tinham nenhum efeito negativo no metabolismo do cálcio…![14]. Outros estudos até mostraram que uma ingestão aumentada de proteína ou de fosfato tem efeitos positivos no metabolismo do cálcio e nos marcadores ósseos[15] [16]. Duas meta-análises concluíram que nenhum estudo clínico randomizado controlado suporta a hipótese que uma dieta ácida provoca desmineralização ou osteoporose[17] [18].

Outra afirmação feita na dieta alcalina é na cura do cancro. A explicação dada é que as células cancerosas só crescem num ambiente ácido, então, a dieta alcalina pode prevenir o crescimento das células cancerígenas e eliminar as existentes. Mas, por haver sempre um mas, já percebemos que a dieta em si não altera nem o pH do sangue nem do líquido extracelular. Além disso, o sangue por ter um pH de 7,4 é ligeiramente alcalino e o cancro é perfeitamente capaz de se desenvolver nessa alcalinidade. Aliás, em quase todas as experiências feitas com células cancerígenas a sua cultura é feita nesse pH[19].
Se, de facto, as células cancerígenas crescem num ambiente ácido é porque elas próprias criam esse ambiente. Ao desenvolverem-se, o cancro "desvia" a glicose e reduz a circulação sanguínea que o envolve, criando um "curto-circuito" onde o pH do próprio paciente já não influencia o pH do cancro; não é o ambiente ácido que causa o cancro, é o cancro que causa o ambiente ácido[20].

Conclusão

No fundo, uma dieta alcalina obriga a um maior consumo de fruta e de vegetais e diminuir os alimentos processados (bolos, biscoitos, refeições prontas, etc), os cereais (o que pode ser bom em pessoas com o intestino permeável ou sensitividade ao glúten), e de leite (que pode ajudar em pessoas com intolerância), e isso não é má ideia. Além disso, apesar do açúcar ser neutro, recomendam diminuir o seu consumo e isso também é boa ideia.
O que me chateia não é tanto a finalidade mas o meio. Dizer que faz mal só porque é ácido não faz sentido e é redutor. Com o apoio da fisiologia e dos estudos podemos estar confiantes, e do momento que não tenhamos condição patológica renal, que os alimentos ácidos não são uma preocupação. Infelizmente não previne nem cura o cancro, mas também não causa osteoporose.

Só mais uma coisa porque me faz rir : este artigo é de 1936 e continua atual, lê o resumo (summary) pagina 3, fica aqui o PDF.


  1. Tobey, J. A. (1936). The question of acid and alkali forming foods. American Journal of Public Health and the Nations Health, 26(11), 1113-1116. ↩︎

  2. Remer, T., & Manz, F. (1995). Potential renal acid load of foods and its influence on urine pH. Journal of the American Dietetic Association, 95(7), 791-797. ↩︎

  3. Bonjour, J. P. (2013). Nutritional disturbance in acid–base balance and osteoporosis: a hypothesis that disregards the essential homeostatic role of the kidney. British Journal of Nutrition, 110(7), 1168-1177. ↩︎

  4. Koeppen, B. M. (2009). The kidney and acid-base regulation. Advances in physiology education, 33(4), 275-281. ↩︎

  5. http://www.newswise.com/articles/acid-levels-in-the-diet-could-have-profound-effects-on-kidney-health ↩︎

  6. Pedone, C., Napoli, N., Pozzilli, P., Lauretani, F., Bandinelli, S., Ferrucci, L., & Antonelli-Incalzi, R. (2010). Quality of diet and potential renal acid load as risk factors for reduced bone density in elderly women. Bone, 46(4), 1063-1067. ↩︎

  7. Fenton, T. R., Eliasziw, M., Tough, S. C., Lyon, A. W., Brown, J. P., & Hanley, D. A. (2010). Low urine pH and acid excretion do not predict bone fractures or the loss of bone mineral density: a prospective cohort study. BMC Musculoskeletal Disorders, 11(1), 88. ↩︎

  8. McLean, R. R., Qiao, N., Broe, K. E., Tucker, K. L., Casey, V., Cupples, L. A., ... & Hannan, M. T. (2011). Dietary acid load is not associated with lower bone mineral density except in older men. The Journal of nutrition, 141(4), 588-594. ↩︎

  9. Tucker, K. L., Hannan, M. T., & Kiel, D. P. (2001). The acid-base hypothesis: diet and bone in the Framingham Osteoporosis Study. European journal of nutrition, 40(5), 231-237. ↩︎

  10. Munger, R. G., Cerhan, J. R., & Chiu, B. C. (1999). Prospective study of dietary protein intake and risk of hip fracture in postmenopausal women. The American journal of clinical nutrition, 69(1), 147-152. ↩︎

  11. Promislow, J. H., Goodman-Gruen, D., Slymen, D. J., & Barrett-Connor, E. (2002). Protein consumption and bone mineral density in the elderly: the Rancho Bernardo Study. American Journal of Epidemiology, 155(7), 636-644. ↩︎

  12. Remer, T. (2001). Influence of nutrition on acid-base balance–metabolic aspects. European journal of nutrition, 40(5), 214-220. ↩︎

  13. Buclin, T., Cosma, M., Appenzeller, M., Jacquet, A. F., Decosterd, L. A., Biollaz, J., & Burckhardt, P. (2001). Diet acids and alkalis influence calcium retention in bone. Osteoporosis International, 12(6), 493-499. ↩︎

  14. Fenton, T. R., Lyon, A. W., Eliasziw, M., Tough, S. C., & Hanley, D. A. (2009). Meta‐analysis of the effect of the acid‐ash hypothesis of osteoporosis on calcium balance. Journal of Bone and Mineral Research, 24(11), 1835-1840. ↩︎

  15. Bonjour, J. P. (2005). Dietary protein: an essential nutrient for bone health. Journal of the American College of Nutrition, 24(sup6), 526S-536S. ↩︎

  16. Fenton, T. R., Lyon, A. W., Eliasziw, M., Tough, S. C., & Hanley, D. A. (2009). Phosphate decreases urine calcium and increases calcium balance: a meta-analysis of the osteoporosis acid-ash diet hypothesis. Nutrition journal, 8(1), 41. ↩︎

  17. Fenton, T. R., Tough, S. C., Lyon, A. W., Eliasziw, M., & Hanley, D. A. (2011). Causal assessment of dietary acid load and bone disease: a systematic review & meta-analysis applying Hill's epidemiologic criteria for causality. Nutrition journal, 10(1), 41. ↩︎

  18. Fenton, T. R., Lyon, A. W., Eliasziw, M., Tough, S. C., & Hanley, D. A. (2009). Meta‐analysis of the effect of the acid‐ash hypothesis of osteoporosis on calcium balance. Journal of Bone and Mineral Research, 24(11), 1835-1840. ↩︎

  19. Martinez-Zaguilan, R., Seftor, E. A., Seftor, R. E., Chu, Y. W., Gillies, R. J., & Hendrix, M. J. (1996). Acidic pH enhances the invasive behavior of human melanoma cells. Clinical and Experimental Metastasis, 14(2), 176-186. ↩︎

  20. Moellering, R. E., Black, K. C., Krishnamurty, C., Baggett, B. K., Stafford, P., Rain, M., ... & Gillies, R. J. (2008). Acid treatment of melanoma cells selects for invasive phenotypes. Clinical and Experimental Metastasis, 25(4), 411-425. ↩︎